Senti um aperto no peito, senti uma dor lastimável percorrer meu sangue. Quis curá-lo, quis que ele se levantasse e gritasse “Te peguei” como sempre fazia. Ele me amava a ponto de tudo, eu gostava muito dele. Ele era a minha força e eu era a dele. Ele era o único que talvez nunca me ignorou. -Por que Deusa? - perguntei entre lágrimas. Meus olhos estavam inundados e embaçados, me senti imóvel diante daquele corpo sem cor. O Marcelo me encarava com uns olhos sem vida. Aquilo me enchia de aflição. Abracei firmemente Marcelo nos braços, como fizera a Deusa comigo. Marcelo estava leve como uma pluma, me senti forte. Aproximei-me de Vênus e logo murmurei. - Como? E por que só ele morreu entre os outros?
A cada pergunta que eu fazia, caia uma lágrima de meus olhos. Não senti sangue algum no corpo de Marcelo. As perguntas perambulavam loucamente em minha mente, que à aquele ponto estava exausta.
Minhas pernas perderam a força e cai de joelhos diante de Vênus, sem permitir que Marcelo caísse. Me senti tão imune e desprotegida, só conseguia pensar em alguém que me dava segurança. Me distanciei do corpo mole de Marcelo e da Deusa. Sai de cabeça baixa da cabana, me virei para a lua semi-cheia e meditei.
- Evil, preciso de você...
Rapidamente senti um vento perturbador e gelado cruzar comigo. Aquela brisa logo cercou-me e levitei. Estava alta o bastante para tocar as estrelas cintilantes da noite. A lua me chamava. Me aproximei de uma nuvem regada de água. Ela me molhou. Olhei para frente e avistei um vulto cor de safira se formar no topo de uma árvore. Apertei os olhos em busca de uma vista melhor. O vulto deu forma a minha velha amiga. Me senti confusa, mas logo aproximei-me dela que disse:
- Meu bem, sinto muito.
Linda cruzou os braços. Sua lástima tomou conta do céu. A atmosfera esfriou e cercou-a. A Sra. Soares transformou-se em uma bela moça. Sua juventude me intrigou, ela era uma mulher belíssima. Aproximei-me dela que recuou instantaneamente. Seus longos cabelos que mais pareciam ondas do mar levantaram-se. Ela começou a emitir sons. Senti um calafrio me rodear, aquela brisa havia voltado.
- O que é isso? E cadê o Evil? - Perguntei.
Eu estava confusa e alegre. Me sentia diferente com a presença de Linda. Ela aparentava ter uns vinte e oito anos, mas não me importava. A moça diante de mim despertou um olhar medonho e logo disse rosnando:
- O que!? Você conhece este Evil? Esse homem é o demônio!
- Na verdade, Vampir, que é.
Senti o olhar de Linda se transformar de brava para delicada. Ela apenas corou, chateada.
- Eu o amo, Evan. E você ama o Evil.
Assenti, mas despertei um não ao entender o que ela disse. Fiz que não várias vezes, mas ela apenas sorriu e continuou. - Eu também queria acreditar nisso, mas não dá. Lembra aquele livro que lhe emprestei? - assenti. - Então, meu bem, leia-o.
Me fiz de desentendida, porém tinha entendido tudo. Fiquei perplexa com a capacidade com a qual ela me compreendia tão bem, uma das poucas. Me lembrei de Evil no mesmo instante e sem forças desisti da levitação e me deixei cair. Tudo à minha volta ficou borrado, meu corpo estava pesado como uma pedra e eu caia infinitamente. Lágrimas caiam de meus olhos, porém logo eram secadas com o vento forte da queda. Estava me aproximando do chão, fiquei imóvel, não queria reagir. Mas com a lembrança de Evil evitei que a queda fosse desastrosa. Linda e a Deusa me impediram, a gravidade perdeu. As duas ergueram os braços com força e pressentimentos otimistas. Eu estava me sentindo segura em seus “braços”. Uma imagem fundiu em minha mente e apoderou-se de mim. Parei de olhar para o chão que estava a poucos centímetros de meu corpo. O pensamento se mostrava rebelde e astuto. O pensamento brotou como uma chama e me fez pensar instantaneamente. Lembrei de Marcelo e Evil. Os dois haviam tomado meu coração, minha alma... Eles estavam bem próximos de me beijarem. Infelizmente Marcelo morreu, uma parte de mim morreu, queria morrer junto. Mas Evil me fazia querer continuar. Eu estava dividida entre um homem e um garoto, que como eu, estavam apaixonados. A voz em minha mente ficou mais intensa e vociferava “Salve-o!”.
- Evan, meu bem - a voz de Vênus me despertou dos pensamentos bizarros.
O céu estava escuro e repleto de aventuras, o céu era o limite. Levantei-me dos braços das duas e rapidamente distanciei-me delas apenas assentindo. As duas se aproximaram de mim, os dois vultos azuis ficaram mais intensos.
- Querida, ouça a Deusa.
A voz de Linda soou preocupada, me virei para encarar-as, meus olhos subitamente pararam de lacrimejar e estavam ardendo de dor. A Deusa suavemente murmurou um nome e surgiu uma luz no final dos vários ciprestes que nos cercavam. A única luz que iluminava a floresta era a da cabana, com o corpo de Marcelo. A luz era vermelha e familiar, abracei Linda com temor.
- Venha, filho.
Que? Vênus não é mãe de homens! Ou era? A bruxuleante imagem se aproximou de nós, eu e Linda. O ser puxou Linda de meus braços e agarrou seu rosto. Beijando-a. Ela cuspiu em direção do seu rosto que logo evaporou o cuspe. Era ele? Nunca o tivera visto. Talvez ele era assim, um homem alto e bonito. Simplesmente fora da média, porém não vencia Evil. Suspirei e me aproximei de seu corpo, que ardia a todos ali. Ele era incrivelmente quente, isso estava me causando desconforto.
- Se- senhor? Tu és Vampir?
Vênus assentiu por ele e o guiou até a cabana.
Vampir saiu da cabana carregando Marcelo nos braços. Aproximei-me dos dois, Vampir me ignorou e resisti a tentação de arrancar o corpo de Marcelo de seus braços.
A Deusa apenas disse: - Querida, Vampir é o guardião dos corpos. Ele tem o dever de aprisionar os corpos em um caixão nas Trevas quando atacados por vampiros.
Curvei-me toda para olhar a Vampir, que estava carregando o corpo de Marcelo, meu Marcelo!
- Não se preocupe pequena vampira.
Que atrevido, já não bastara arrancar Marcelo do chão que ele morrera.
- Por favor não o machuque, cuidem bem dele.
Vampir fez que sim com a cabeça e sorriu para mim soletrando uma frase:
- P-A-R-A-B-É-N-S.
Fiz cara de interrogação e me aproximei dele onde vi a cara pálida de Marcelo. Era incrível como ele estava pálido e com aparência horrível. Afastei meu rosto do dele e olhei novamente para Vampir, que sorriu com os caninos saltando de sua boca.
- Como?
- Você realizou meu pedido - disse angustiado. Dim dom! Drrrr como é que eu não tinha percebido! Ele continuou. - a carta...
- Sim! Eu sei! De nada?
Vampir franziu a testa e gargalhou com minha inocência. Virou-se para Vênus agradecendo-a, mesurou para nós três, mas com Sra. Soares, ele apenas beijou as costas de suas mãos. Despertando nela prazer. Hesitei e agradeci. Seu olhar para Linda foi de pura paixão e medo. Arfei um pouco, mas fui detida por Vênus. Vampir se afastou de nós e desapareceu no azul marinho da noite.
Circulei como um redemoinho entre os vários ciprestes que lá habitavam, eu estava triste e confusa, mas mais confusa que triste. Corri nos braços de Vênus e sussurrei em seu ouvido:
- Leve-me para casa.
Vênus apenas fez que sim com a cabeça e delicadamente me levantou no véu da noite. A brisa me fazia sentir uma pluma de gavião enquanto sonhava acordada nos braços de minha Deusa. Pensava no fato de minha vida estar dando voltas e voltas. Minha melhor amiga estava me abandonando ao longo das horas. Eu estava só, me sentindo uma daqueles vampiros solitários dos filmes. Minha mente despencava junto às estrelas brilhantes que faiscavam desejos e memórias, que permaneciam no céu azul. Queria e estava decidida em mostrar a carta para Nati, e provar a minha inocência. Chegaria em casa e imediatamente flutuaria até a casa de Nati, adentraria o seu quarto que sempre estava com a janela aberta para o mundo afora e esperaria na vasta e bela cama de Nati. A Deusa me deixou continuar a trajetória sozinha, então eu estava sentindo um mau pressentimento, uma força negativa que ficava me circulando. Ele me tocou nas canelas me deixando arrepiada. Seu toque era gelado e impróprio, ele sussurrou em meus ouvidos e sua respiração se juntou a minha.
- Evan...
Mirava nas estrelas em busca do rosto, me contorcia, mas a única coisa que vi era um vulto avermelhada e mais claro que o normal. Sussurrei seu nome em busca de sua identidade: - Evil?
- Sim Evan - ele parecia estarrecido e melancólico. - Você vai realmente salvar aquele humano?
Eu não estava pensando naquilo, e era possível? Como se ele tivesse lido meus pensamentos assentiu com a cabeça infeliz.
- O que que tem? E como?
- Você terá que ir até Lúcifer e fazer um acordo de troca, pode ser qualquer uma, desde que seja da vontade de Lúcifer.
O encarei com uma cara de interrogação, curvando o pescoço enquanto ia na direção da casa de Nati, levitando.
- Evan, você é uma péeeeeessima vampira em treinamento!
Me senti ofendida!
- Ei, não é minha culpa se meu mentor só sabe ficar aos pés do Deus e de VOG!
- VOG?
- Vampir o Grande!
Ele parou de roçar em minhas canelas e veio até meus ombros onde, com ira, os afundou. Doeu. Fiquei imóvel aguardando o final dessa sessão tortura.
- Evan - disse calmamente.-, eu soube que Vampir está apaixonado, só estava tentando o ajudar...
Um choque elétrico passou pela minha espinha em direção ao meu crânio. Fui rápida, não queria demonstrar expressão de choque.
- Ah tá, quer se fazer de cupido então? E depois me culpa?!
Evil se aproximou de mim e me agarrou pela cintura, nos unindo. Nossos corpos se encaixavam como um quebra cabeças. Meu rosto se aproximou do dele. Evil bufava, comecei a respirar o mesmo ar que ele. Logo ele soou triste:
- Evan, se você quer salvar seu humano, procure outro aliado.
O quê? Pensei. Como assim? Aliado é o mesmo que mentor! Eu não acharia (nem queria) achar outro. Pensei e repensei durante os longos minutos de pausa que permaneceram-se entre nós. Lembrei-me da única outra aliada que conhecia, Linda. Me afastei de Evil e pasma disse logo em seguida:
- Você já pode ir, Evil.
Sua resposta foi espontânea e logo eu estava sozinha em casa. Mas eu tinha uma meta a cumprir, e ia cumprir. Recompus as forças, encarei a janela pequena do meu quarto minúsculo e catei a carta na escrivaninha próxima à janela. Minhas bochechas estavam vermelhas de nervosismo e eu fervia como o calor. Eu estava atordoada com o que Nati pensaria. Também em minha escrivaninha, peguei o meu celular Nokia, entrei em mensagens e digitei uma mensagem de texto para Nati. Nela dizia:
Nati, estou indo ai. Deixa a janela do seu quarto aberta. Tenho algo de tamanha importância para compartilhar contigo.
Gotas escorriam de minha testa e pelas maçãs da minhas bochechas. O suor me deixava mais calorenta do que já estava. Firme e rapidamente, coloquei a carta no bolso da minha calça e o forcei para o fundo da mesma. Preparada, parti.
O céu ainda estava frio, uma jaqueta ajudou um pouco. Felizmente cheguei rápido para a casa reformada de Nati, onde pousei suave e delicadamente na janela. Ela se assustou ao me ver. Vi seu celular carregando na tomada. Dei um tapa em meu rosto e logo disse:
- Você vai entender assim que ligar seu celular.
Nati não disse nada, apenas levantou-se da cadeira próxima a uma mesa e retirou o celular da tomada. Ligou-o rapidamente e com a rapidez de um furacão o leu. Seus olhos se mexiam de um lado para o outro. Ela levantou sua cabeça para mim e aprontou-se:
- Então, o que é tão importante assim?
Passei minhas mãos pelo rosto. Elas estavam ensopadas de suor. Fitei meus olhos aos dela e tranquila lhe entreguei a carta. Não demorou muito até ela pegar o envelope de minha mão e abri-lo. Ela leu cuidadosamente as palavras que me cortavam o coração.
Evangeline,
Sou Vampir o Grande, apóstolo de Lúcifer. Com sua autorização lhe entrego esta carta. Nela contém uma ordem, um comando. Leia atentamente, pois nunca erro.
Terás de envenenar um humano de seu parentesco. Alguém que mesmo não tendo seu sangue correndo nas veias, ainda assim é uma pessoa muito importante para você.
Concentre-se nas instruções:
- Faça-a saber que você está cumprindo uma ordem, pois será membro da Aliança de Vampiros
- Não sugue tudo a ponto de matá-la.
- Informe-a de seu Deus, Lúcifer ou Goodnight, assim que possível.
Nati imediatamente me encarou. Curvou os lábios e voltou a ler.
Natalia, terá que se tornar vampiro até o final desta semana senão morrerá queimada nas mãos de Lúcifer... Tudo que precisas fazer é isso.
Receberás esta carta de seu mentor, aliado, Evil. Preste atenção nas minhas recomendações e faça como mandado. Se você não o fizer, queimará nas profundezas do inferno, junto a seu Deus. Terás que envenená-la com no mínimo quatro gotas de seu poderoso, porém fatal veneno dado por Lúcifer. Como todas as Legile de Vampirris dizem, sua vítima irá tornar-se vampiro consagrada por qualquer Deus da escolha que tu farás ao envenená-la.
Peço que entregue esta carta para a vítima e que a sele com um pingo de seu sangue...
Nati fitou seus claros olhos nos meus e aborrecida deixou seu corpo cair pesada e preguiçosamente na cama. Lágrimas caiam sem querer de seu belo rosto. A cicatriz de minha mordida estava infectada por algo, talvez fosse minhas quatro estúpidas gotas.
Eu sei o que você deve estar pensando: Nati é uma chorona... Mas eu não a culpo, antes ela já passava por dificuldades demais e agora, bom, agora é que ferrou mesmo!
Minha amiga se curvou até mim e perguntou com soluços, tornando a frase quase interminável:
- O que... o que quer dizer...o que quer dizer “como todas as Legile de Vampirris dizem, sua vítima irá tornar-se vampiro consagrada por qualquer Deus da escolha que tu farás ao envenená-la”?
Esforcei-me em tentar encontrar a resposta certa, mas o único pensamento que me ocorrera foi o que parecia o mais correto.
- Acho que se o vampiro que está no momento envenenando o humano estiver tendo pensamentos de culpa e bondade, o Deus seria Goodnight e caso o contrário... Lúcifer - digo incerta.Seus olhos me encaram sem expressão e seus dentes mordiam os delicados lábios. Apenas aproximei-me dela e peguei suas mãos, as fechando. - Minha amiga, seu Deus é o altivo Goodnight, enquanto o meu é... Bom Lúcifer.
Abaixo a cabeça e meu rosto se mergulha em tristeza, forçando-me a liberar as mãos de Nati para esconder meu melancólico rosto. Suas mãos, ainda quentes depois do meu aperto nelas, se aproximam de mim e retiram as lágrimas, dizendo:
- Evan, eu sei que não foi essa a sua intenção. E além do mais, o Lúcifer não é tão mal assim.
A encaro, meus olhos penetram em sua alma, causando nela um gélido calafrio. O sarcasmo em suas pupilas transformam-se em assombro quando digo:
- HÁ, me poupe! Ele é o Deus do mal! Ele é o ser mais frio e cruel do Universo! Se ele tem um pingo de bondade, eu duvido, e muito!
A cada frase, Nati encolhe com dificuldade, sentindo-se arrependida pelo esforço de me alegrar após meu brusco modo de falar. Bufo com falta de ar, meus punhos fechados batem na bela cama de Nati e meu rosto, antes pálido, transforma-se em um tom de pimenta. O temor entre nós é invadido pelo toque do meu celular. Com pressa, o arranco do fundo do meu bolso, com dificuldade. O atendo após o segundo toque. Nati se encosta na parede e respira pelo nariz e solta o ar pela boca, como um exercício de yoga.
- Alô - digo.
- Evan! Evan!
- Quem é?
- Evan, venha agora! - paralisada deito na cama.
- Quem é?
- Venha pra rua Culdock! Entre numa caixa grande e escura, um portal!
A ligação é encerrada. Desconfiada chacualho Nati. Seria todo esse drama um simples e bem armado trote? Mas meu eu discorda, a voz me era familiar, como se eu estivesse com ela no mesmo instante.
Corro em direção da grande escrivaninha de Nati e retiro, sem o menor cuidado, um papelzinho do bloco de papéis que lá habitava. Abro o zíper da mochila de Nati com dificuldade e tiro do estojo bagunçado um lápis todo rabiscado e mordido. Sim, Nati roe lápis quando nervosa. Rígida e ansiosa, passo as informações do endereço que a mulher - com quem acabara de falar- me passara.
Com pressa, corro até a janela (como se fosse a coisa mais comum a se fazer), e com um salto corajoso saio do quarto de Nati em direção reta na noite que prometia algo. A noite, cercada de belas e brilhantes estrelas, me acolhia. Me fazia flutuar como uma pena. Meus braços não se movimentavam nem nada do gênero, pois era o poder da mente (e dos dons concebidos da Deusa, provavelmente) que me faziam levitar.
Aproximando-me cada vez mais da rua Culdock, sintia calafrios. Minha mente confusa, faz com que meu vôo tenha freiadas súbitas e desnecessárias. O nervosismo se espalha pelo meu corpo, a adrenalina idolatra meus movimentos. A cada metro percorrido, mais perto estou. A cada metro mais perto, mais sinto a energia negativa na noite.
A rua Culdock, sempre vazia e escura, me causa, até hoje, más lembranças e calafrios na espinha. Tudo que faço ao chegar na rua mal pavimentada da área é ficar imóvel.
Merda! Esqueci meu celular na escrivaninha de Nati! Meu estoque de paciência está no fim. Todas as coisas ruins só se sucedem comigo! É o Evil, o VOG, a Nati, o Marcelo e agora isso! Penso em voltar e recuperá-lo, aproveitar minha estadia na casa de Nati e voltar com uma, quem sabe, lanterna! Mas uma voz, no fundo da minha alma, me obriga a continuar vagando na rua.
Não avisto portal algum, muito menos uma caixa grande. Um carro ali, acolá, mas só isso. A rua se mantém deserta!
Como se uma lanterna ligasse em cima de mim, por cima do ombro encaro um beco. Beco, meu cúmplice de todas as caçadas. É você? Sim, meu beco, que guarda consigo os ataques e acontecimentos bizarros... Que coincidência. Caminho com calma e delicadeza. Meus ombros pesam sobre mim. A escuridão familiar do beco me chama. Como um ímã, corro em sua direção. Como nunca havia percebido isto antes?! Cinco caixas, uma empilhada acima doutra, agrupadas. Avisto a grande caixa da qual a voz me dissera. Ela também era escura, culpa do beco. A única luz que adentrava o canto era a da lua cheia. Melhor amiga dos Deuses e da Deusa. Estava lá para facilitar minha visão.
A caixa era bege, muito mal feita, mas que por trás dela um imenso clarão somente visíveis a meus olhos superdotados brilhava. Hesitei em entrar. Pensava: que trote bem feito, até efeito especial! Mas aquilo estava longe de ser um trote ou uma piada de mau gosto. Estava tudo sendo planejado pra mim? NÃO! Quem gastaria milhares de reais pra sequestrar uma vampiro? NINGUÉM!
Estava a poucos centímetros da luz, escondida pelas caixas. Dei um passo, talvez o último. Entrei. Branco. Só branco. Nada mais. Espera! Sinto-me caindo, sinto que estou prestes a morrer! Mas logo tudo pára e me vejo em uma escadaria. A escada parece ter uns duzentos degraus de tão alta e íngreme. A subo com facilidade, pois flutuo. Logo me vejo em um gramado peculiar e molhado. Dono de um tom verde claro, atraem-me até outra luz, desta vez rosa. O rosa-choque se solidifica em um colchão alto. Meu Deus - penso - onde estou?
Tão rápido com começara, uma silhueta me tira do colchão e desaparece.
-Eu acho que poderia descer o colchão sozinha, mas valeu pela gentileza - agradeço ao além.
Jurava que Evil surgiria e me beijaria. Mas não, não surgiu. Ao invés disso, Nati grita. Olho em volta, mas só vejo gramado. O grito se encerra e uma cabeça surgi acima de um arbusto, tremendo. Rindo e ao mesmo tempo preocupada, a tiro de lá com um leve puxão de cabelo. Ela coça sua cabeça e feliz em me ver, me abraça. Retribuo.
- O que você ta fazendo aqui?
- Sei lá, me diga onde estamos primeiro.
- Não posso, nem eu sei - nossos olhares se cruzam. - Diga-me, como chegou aqui?
- Seu celular, tinha uma mensagem de voz implorando pra vir aqui.
Ah, isso explica tudo. Não só eu vejo esse portal, como Nati também!