
Quando os pais de Nati chegaram, estavam bêbados. A mãe de Nati sorriu para nós e logo tombou com a mesa de jantar, eu dei uma gargalhada, vi que Nati me olhou com um olhar de frustração e logo ela me deu uma cotovelada no braço, doeu. Não pude evita e dei um soco de leve com o punho fechado no ombro de Nati, ela me observou e sinalizou com o dedo indicador para cima. Olhei para o teto, logo virei minha face para o rosto de Nati e fiz uma cara de interrogação. Ela indicou novamente e sussurrou:
- Vamos subir, minha mãe é maluca bêbada.
Fiz como mandado e subi me esquivando dos moveis que cercavam a casa reformada. Subimos as escadas e fiquei tonta, muito tonta. Nati nem percebeu e quando por fim notou minha ausência e virou para mim e esbugalhou os olhos.
- Evan! Você está bem? - ela ficou paralisando me analisando.
- Só fiquei pouco tonta, vamos, me ajude! - exclamei, muito tonta!
Quando Nati agarrou meu pulso vi suas veias saltarem quando ela fez força para me levantar, lambi os lábios e toquei meus caninos com a língua. Era isso, eu precisava de sangue. Fiquei inquieta quando vi que a mãe de Nati tombou novamente com outro móvel, porém desta vez o móvel era de vidro e ela começou a sangrar. Vi o sangue escorrer suas pernas mal escondidas pelo vestido de veludo e me apressei a me soltar de Nati e ir próxima a minha nova vitima.
- Oh, você está bem? - perguntei sonsa, eu não estava lá para ajudá-la e sim para sugar seu sangue vitaminado e repleto de álcool. Eca! Esse pensamento me fez afastar de ela e correr em direção de Nati, que estava na beira da escada sem entender nada. Provavelmente pensando “Ela é obcecada por esse liquido vermelho”. Subi as escadas e agarrei o braço de Nati ao passar por ela e a levei às pressas no quarto dela.
- Você está maluca! - Nati disse. Aquilo não soou com uma pergunta, porem discordei com o indicador e mostrei a ela minha pele pálida e fria.
Quando um vampiro esta com a pele com as características que eu citei, isso significa que é necessidade de sangue estrema. Nati se exaltou e compreendeu, me afastei ao ver o ato impulsivo que ela fez. Nati levantou a manga de sua blusa e o seu braço bronzeado ficou a mostra.
- Não! Sai! - gritei, mas nenhum adulto foi ao quarto de tão bêbados e sonolentos que estavam.
- Vá em frente, Evan - disse Nati, me incentivando. - Alias não é a primeira vez.
O pior era que Nati estava certa, não era a primeira vez, na verdade a primeira vez fora no pátio da escola.
Eu estava débil o suficiente de não conseguir me mexer, achei que ficaria paraplégica. Nati assustada se aproximou e chorou muito, tínhamos apenas nove anos e mal sabíamos o que estava por vir naquela manhã. Nati sempre carregou um pedaço de vidro que um dia ela encontrara na calçada da escola, essa é outra historia. Me lembro que no dia em que ela encontrou a tal vidraça disse que era um sinal de Vênus, a deus das mulheres, e guardou em segurança até aquele dia o pedaço de vidro.
Ela retirou o objeto da carteira delicada e fechando os olhos cortou seu braço, abrindo uma ferida pequena porém recheada de sangue fresco. Lembro-me que ela colocou automaticamente seu braço em minha direção, tanto eu quanto ela sabíamos que não havia outra opção e bebi pouca mais que 500mls.
Voltando ao presente, Nati tem a cicatriz da ferida até hoje e eu sabia que ela estava apta a reabri-la para me alimentar.
Infelizmente Nati havia jogado fora o pedaço da vidraça logo após um dia do incidente do pátio, então não tínhamos um instrumento para abrirmos a ferida e nossa tamanha preguiça nos limitou de ir até a cozinha e pegar uma faca ou algo do gênero. Então Nati, olhou para minha boca e logo indicou os dentes, sabia o que ela queria dizer.
Me apressei e com os olhos vendados por um de meus palmos suguei seu sangue doce e requintado de proteínas (livre de álcool também). Me lembrei da carta de Vampir e o que ela continha e sem mais nem menos, eu tinha ali uma oportunidade de realizá-la e a melhor parte: a culpa não seria completamente minha, pois Nati se oferecera. Não tive escolha e parti pro ataque, aquela seria minha primeira vitima a ser envenenada. Me apressei e fui derramando meu veneno em seu sangue, Nati começou a se revirar de dor! Parei assim que ela gritou:
- Pare! - ouvi ela dizer e como mandado parei.
Nati ficou confusa mas de cabeça baixa, fiquei satisfeita por dois motivos: 1º eu não estava mais tonta e 2º eu tinha feito um pouco do que Vampir mandou eu fazer. Vi meu reflexo nos olhos úmidos de Nati, levei minha mão até seu rosto para cariciá-la suavemente. Mas ela se afastou de meu carinho, vi tantas lágrimas em seus olhos que queria morrer ali mesmo, me adiantei a dizer:
- Desculpa, Nati, não era minha intenção - ela me encarou com cara de desgosto, sim eu estava sendo uma hipócrita, mas eu não tinha culpa mesmo!
- Como você se atreve? Eu estava tentando lhe ajudar! Agora estou dolorida! - disse minha vitima, Nati estava arrependida e realmente brava.
Pensei em como em segundos atrás estava tudo bem entre nós, estávamos cercadas de crônicas engraçadas sobre meu mentor, estávamos rindo a plenos pulmões e nada podia arruinar aquele momento entre amigas. Mas pretérito é pretérito, e em poucos minutos depois, toda a diversão repentinamente se transformou em desprezo e confusão entre amigas. Tive vontade de chorar, muita vontade de chorar. Meus pensamentos me privaram de tocar Nati, de repente me vi encostada no canto da parede próxima a cama de princesa de minha ex-melhor amiga, logo a minha visão ficou embaçada e tudo que eu sentia não bastavam de infinitas gotas que se derramavam em minha face. Minha pele, antes seca, já estava mais úmida que uma lagoa. Me senti fraca, impossibilitada de agir diante daquela situação. Me deixei desistir e cair no piso de carpete daquele quarto antes com uma energia boa, agora com uma energia requintada de traição e tristeza.
Me deitei e me pus a pensar em Nati, apenas em Nati. Em como ela tinha total confiança em mim, mas agora às três da manhã, tinha nojo e ódio de minha pessoa. Eu não queria perder a sua amizade e tentei ao máximo pensar em apenas lembranças de nossa amizade e coisas boas, apenas boas. Como eu queria lhe contar o motivo de tal ação, que não fora minha culpa e sim de um frio e sem alma de um vampiro.
Parei de pensar em Nati ao ouvir uma leve ventania cercar o mundo a fora. Olhei em direção a única janela do quarto. A brisa era eminente e cercou o cômodo, ninguém a havia fechado. Fiquei encarando a noite escura, cheia de nuvens e com uma lua crescente. A paisagem estava repleta de tranqüilidade, a noite me chamava, eu a conseguia ouvir e sentir. “Venha querida, tenho algo a lhe mostrar”. Aquela voz calma e sedutora me fez levantar e caminhar até a janela. Vi um espírito de uma bela mulher cercada por um vulto azul e verde claro, ela aparentava ter vinte e poucos anos, suas madeixas louras e castanhas a cercavam de seu rosto a sua cintura. Meu queixo caiu e estiquei a mão até aquele espírito.
- Sai Evan, você vai pegar um resfriado - disse a voz de Nati sem forças. Ela falou comigo! Ela ainda se importava comigo! Vi um pingo de esperança crescer em meu cérebro. - Vamos Evan! Saia já!
Fiz como mandado, ela introduziu: - e fecha essa janela.
Novamente a obedeci e me aproximei dela, ela estava pálida e com uma das mãos tampava a ferida de seu braço. Olhei em volta e peguei meu casaco rasgado e feio, o peguei rapidamente e enrolei cautelosamente na mão direita, onde estava a ferida. Enrolei o casaco em seu pulso que sangrava muito. Fiz um curativo improvisado nela e a encarei com os olhos mais angelicais que pude emitir. Ela retribuiu com um olhar de perdão e arrependimento.
- Perdão Evan, você me perdoa? - perguntou Nati com os olhos afundados em suas lágrimas salgadas e cristalinas.
Nem precisei soltar minha voz, um simples abraço respondeu sua pergunta. O abraço foi longo e gostoso, não queria que aquela sensação acabasse muito menos Nati queria. Com meus braços em volta dela, aproximei meus lábios de sua orelha direita e sussurrei com uma voz trêmula.
- Eu te amo Nati, me perdoe - minha voz falhava loucamente e eu chorava muito.
Ela me apertou e fez com que o abraço selasse esse momento de sinceridade entre amigas, que estavam se sentindo repletas de culpa.
Nati encerrou o confortador e caloroso abraço e se retirou do quarto mostrando seu pulso dolorido e indo em direção ao quarto dos pais. Ela iria chamar-los para dar boa noite, mas do jeito que eles estavam bêbados, não iria nem notar o pulso ensangüentado de Nati. Aproveitei que ela saiu e voltei meu corpo até a janela fechada. A abri e vi a bela mulher flutuando em minha frente, ela sussurrou:
- Evangeline, minha querida- disse calmamente.- Sou sua Deusa, Vênus - fiquei a encarando e me surpreendi ao ouvir tal frase.- Tenha cuidado você corre perigo, pense duas vezes antes de realizar qualquer ação.
A mulher, Vênus, desapareceu naquela fria noite de sexta feira. Olhei para baixo automaticamente e vi uma pessoa. Me lembrei do que minha Deusa acabara de dizer e instantaneamente recordei o acontecimento do telefonema anônimo. Nati voltou pro quarto enfaixada com um decente curativo e jogou meu casaco em um cesto de palha de roupa suja que ela tem desde que eu a conheço como pessoa, ou seja, desde os quatro anos. Ela se voltou para mim e seus louros cabelos voaram pelo ar, ela deu um sorriso de alegria e me deixou com medo. Deusdocéu que medo dela! Fiquei ali parada, a encarando, me pondo a pensar em como ela estava feliz (até demais). Seu júbilo cercou a casa e me senti cercada de flores e doces saltitantes, como no Discovery Kids. Levantei e me aproximei da felicidade em pessoa, ela sorria com a boca totalmente aberta. Quando estava em sua frente, a menos de um metro daquela criatura, a chacoalhei e ela se esquivou de meus braços e caiu pesadamente no chão. Ela se pôs a chorar e borrar toda sua maquiagem. Percebi que aquele sorriso estava apenas escondendo sua tristeza repugnante.
- O que aconteceu com você, Nati? - perguntei nervosa e com os olhos tristes, minha sobrancelha estavam mostrando minha preocupação com seu volume e postura. Ela me olhou com uma dor e ao mesmo tempo ira nos olhos e fez questão de me mostrar o dedo! - Que é isso! - não soou como uma pergunta e deixei claro que estava me sentindo ofendida.
Ela se curvou e diante de mim disse nervosa - Olha o que você fez, Evan! - disse Nati com ódio e desgosto estampados na face toda mutilada pelas suas mãos, e molhada pelas suas infinitas lagrimas. - Você não sabe? Me transformou nisso agora, em algo que você sabe melhor que eu, que odeio isso!
Me senti duplamente ofendida. Sim, eu sabia melhor do que ela que ela odeia vampiros. Ela fazia questão de colocar em todas as redações que mandavam fazer sobre vampiros, que somos repugnantes e malignos e ela fez questão de colocar na capa do livro de vampiros que nossa professora nos mandou ler, na capa de couro marrom: “Odeio eles! Seres repugnantes!”.
Mas agora ela era uma de nós e ela tinha que aceitar isso, por mais que ela odiasse a ideia. Ela me olhou e com forças bruscas arrancou o curativo de seu braço (o estraçalhou para ser exata) e me mostrou duas picadas fofas e pequenas rodeadas de vermelho e amarelo. Isso queria dizer que eu acabara de envenená-la, pois nosso veneno tem um forte tom de amarelo. Tanto é que nunca vou ao dentista, senão é evidente que meus dentes não são normais e que eu tenho bactérias amarelas e liquidas, pois não há nenhuma outra explicação correta com esse diagnóstico. Eu me choquei ao ver-La ranger seus dentes. Em seguida ela mordeu seus lábios, mas eles sangraram. Seus caninos haviam sido cravados nos lábios antes pálidos de Nati e agora vermelhos. Fechei os olhos de nojo quando a vi lamber os furinhos dos lábios, ela estava gemendo de prazer. Logo Nati percebeu o que estava fazendo e com a manga do casaco roxo que ela estava usando tampou cuidadosamente as aberturas no lábio e disse com dificuldade e raiva:
- Viu só o que eu estou querendo dizer! Você me transformou nesta aberração e agora não tem mais volta! Minha vida já era, Evan! E tudo isso é sua culpa!
Sim, Nati fez questão de acrescentar um maior tom de voz no final de cada frase. Novamente me senti ofendida e franzi a testa. Cocei o queixo, fechei minha boca que estava a poucos segundos aberta e perplexa e com uma de minhas longas e afinadas unhas arranhei Nati. Ela gritou e gemeu.
- Sei... então quer dizer que você está triste, que você está brava e que foi você que acabou de dizer que sua vida nunca vai ser a mesma? Pois fique sabendo cara amiga, que se não fosse por isso eu não seria sua amiga. E se você acha que sua vida acabou, saiba bem que não acabou! Pois você tem uma família compreensiva e uma amiga vampiro que vai te apoiar e te proteger de todos os obstáculos e que principalmente irá te amar incondicionalmente! - disse com uma sinceridade jamais demonstrada antes a ela. Nati se revelou arrependida por tudo que dissera para mim e se mostrou calma. Ela se aproximou de mim, mas ao tentar me abraçar recuou. Vi uma expressão triste e arrependida, completamente arrependida. Nati sempre odiou pessoas racistas, e agora ela estava se sentindo uma - Que foi, vai ficar ai parada com essa cara? - disse friamente. - Vamos respon...
- Ta eu sei! Sei que fui racista me desculpe! - ela interrompeu, sorri e me aproximei dela. Nati hesitou e me abraçou. - Promete? - fiz cara de interrogação e ela repetiu. - Promete?
- Promete o quê, Nati?
- Promete me amar incondicionalmente!? - disse entre lagrimas e sua mão trêmula lavou seus rostos úmido.
Fiz que sim com a cabeça e chorei com ela. Nossas lágrimas se encontraram, nossos cabelos estavam molhados como se tivéssemos acabado de tomar banho e nossos olhos estavam exaustos, os fechamos. Adormeci no chão ao lado de minha melhor amiga, agora mais próxima do que nunca.
Acordei, mas não me lembrei de ter dormido. Estava com torcicolo e dor na bunda, eu tinha dormido no chão com os braços em volta de Nati. Mas acordei e ela não estava mais lá. Me levantei do chão e corri em direção a porta, quando estava em frente dela olhei pelos cantos dos olhos e gemi de arrependimento por não ter dormido confortavelmente na bicama da Nati. Desci as escadas como um furacão, a casa estava arrumada com todo capricho, diferente de ontem após a mãe de Nati ter tombado em quase todos os móveis da sala. Ela me saudou carinhosamente e feliz fez um gesto para que eu me sentasse na cadeira do bar.
- Não obrigada....e-eu não bebo - gaguejei.
A mãe de Nati soltou um estrondoso riso e me encarou, para logo dizer - Oh não querida - riu de novo - não é para você beber, é aqui que agente (só quem mora na casa) come quando a empregada não está aqui.
Ela fez questão de soltar outra irritante risadas, aquelas com a mão no peito de dor de tanto rir. Me senti uma debiloide me senti uma palhaça da corte e me encolhi ao som da voz da mãe de Nati a chamando para comer conosco. Ela demorou a descer e no pequeno e equipado bar de álcool o clima ficou tenso e tedioso. Fiquei pensando em minha mente “Cadê você menina? Aparece Natália!”. Fiquei muito aborrecida quando ela finalmente surgiu na escada a descendo tonta e sem rumo, ela estava com sono e com um pouquinho de sangue na boca! Dei um salto da cadeira alta de bar e fiz um gesto para Nati esfregando o meu dedo indicador nos lábios como se os estivesse limpando. Ela agiu de imediato e deu um sorriso sem graça e sentou-se na outra cadeira ao meu lado. Aquele bar não era nem dos piores, nem dos melhore, ele tinha seus charmes e também era bem colorido. Mas a reforma destruiu parte de sua alegre pintura e deu cor a couros beges e castanhos. Posso afirmar que aquilo não me agradou, porem tive que comer os ovos fritos que a dona da casa fez para mim e me contentar do fato de que o prato de Nati tinha bacon! Só porque eu sou visita e ela moradora, tsc gente mal educada!
Assim que acabei, me levantei guiei o prato vazio até a pia da cozinha e fiz um aceno dos mais bregas para as donas da casa e subi em direção ao quarto de Nati pensar um pouco.
Fiquei ali parado de mãos abanadas e com veias repletas de sangue. Me pus a pensar (sim, eu sou muito pensativa) e fiquei com uma expressão triste e sem direção no rosto. Me aproximei da janela, ela estava aberta e o dia afora estava perfeito. O céu claro e livre de qualquer nuvem me aprisionava na casa e no calor, me dei conta de que aquele mesmo homem estava me olhando atentamente e com um pose de ataque. Não podia deixá-lo me atacar, pois ele entraria na casa e provavelmente sugaria o sangue da família, não que eu me importasse com esse fato, mas eu me importava com Nati. Fiz um longo encaro nele e ele se sentiu inferior a mim. Como eu já dissera o dia estava claro, então não foi difícil de perceber o rosto do homem, me joguei na cama próxima a janela e ri. O que ele estaria fazendo ali.
Nati ouvindo minhas gargalhadas dos outro lado da porta, entrou no quarto rindo mais alto e alegremente. Ela fez uma cara de quem não estava entendendo nada. Fiz questão de encará-la e me virar novamente para a vista da janela. Minha curiosa amiga se aproximou e cochichou em meus ouvidos:
- O que você está olhando?
Ela soava curiosa (como eu já dissera) e ansiosa, despertou em mim uma vontade voraz de sugar seu sangue para que ela se calasse e se afastasse. Porém por mais que eu quisesse agora ela era uma de nós e ela revidaria.
Me aproximei de Nati e perguntei vorazmente: - Topas caçar uma presa comigo?
Meu sorriso malicioso se espalhava pelo meu rosto, logo ela respondeu com uma cara insatisfeita.
- Como assim? Vamos é caçar duas presas! - ela se encaminhou até seu armário e dele arrancou dois vestidos longos e escuros. Pediu que eu me vestisse, apenas fiz como mandado. Ela rapidamente pegou um lápis (de maquiagem), uma sombra e é claro uns batons vermelhos cor de sangue. Fiquei ali parada pensativa “Acho que a Nati não sabe nada do que é ser uma vampiro, não é igual às fábulas”. Ela se adiantou e cobriu o único espelho do banheiro ao lado do quarto com seu rosto maquiavélico. Ela passou uma sombra escura em si mesma, em volta dos olhos azuis e um pouco abaixo de suas olheiras, logo ela contornou com o lápis preto seus olhos, os deixando com um aspecto de vampiros de fábulas. A encarei novamente, seu vestido cobria sua pele do pescoço para baixo. Seu tecido encostava no chão e se rompia ao chão, como ondas que se desfaziam no longo tapete azul que é o oceano. Eu fiquei a encarando-a mais intensamente. De repente ela cobriu seu rosto com uma camada grossa de blush branco e logo traçou seus lábios com o vermelho intenso que era o batom da AVON (marca preferida da criatura). Assim que terminou a reconstrução facial, se virou para mim com a longa cauda do vestido se esquivando da privada e se encaminhou até mim dizendo. - Está esperando o que, vampira mal produzida? - disse Nati com uma ousadia ousada (péeeessima utilização de palavras, eu sei). Ela se dirigiu ao seu quarto, onde olhava com um brilho nos olhos uma bota de salto alto, diria uns 13 cm. A cauda de seu vestido encontrava dificuldade para se esquivar dos móveis e paredes no caminho. Ela os calçou e me olhou severamente, dizendo. - Estou chique, enquanto você, nem se fala Evan - me olhou novamente me revistando de cima a baixo. Ela se tornara uma megera. E que papo é esse de eu estar sem estilo comparando-se a ela? Eu sou estilosa, sim!
Me aprontei e ocupei o espelho do banheiro. Não fiz nada do que Nati fizera, apenas caprichei para deixar o redor dos meus olhos sexy e sedutores e reparei na ousada silhueta do vestido, que consequentemente faziam meu peito sobressaltarem e dar um volume a eles. Dei uma volta de súbito virando-me para Nati, dizendo logo em seguida:
- Se eu não estou estilosa pra você, passa um colírio que assim você melhora, querida - fiz questão de soar como uma vadia e incrementar a palavra “querida” desnecessariamente.
Trocamos sorrisos curtos e cheios de rancor. Mas logo os sorrisinhos foram assumidos por sorrisões e estávamos rindo pra valer uma da outra. Nós nos amávamos muito. Então a olhei severamente e perguntei:
- Sério, Nati, que roupa é essa? - ela me conferiu e me apertou num longo abraço. Nati me encarou e sussurrou em meus ouvidos:
- Relaxa, só estava entrando no clima.
Antes que fossemos atacar duas presas, fiz questão de explicar-lhe como o fazer. Ela me olhou atentamente, anotando todas as minhas dicas na mente. Parecia uma aluna dedicada, uma nerd. Logo depois de dez minutos, ela levantou a mão, como uma aluna com dúvida. Apontei para ela.
- Evan, como assim não posso beber mais de 500mls?
Olhei para ela, que sonsa. Dei um sorriso debochando a e me adiantei em responder astutamente:
- Oras, se você beber mais vai acabar causando problemas na vitima.
- Exemplo?
Puxa, ela era rápida. Estava totalmente centrada no assunto. Conforme eu pensava na resposta mais adequado, o céu ia escurecendo, dando um ar de suspense e terror. Me lembrei imediatamente de Evil, meu mentor, ele era assim, em um momento ele era calmo e lindo (na maioria das vezes), porém ele mudava lentamente sua personalidade, mostrando a razão pela qual ele era um apóstolo de Lúcifer e aliado de Vampir o Grande.
Me lembrei que ainda estava com Nati e me adiantei a responder sua pergunta.
- Um exemplo é... trauma, danos cardíacos e um possível chance da vitima ficar paraplégica.
Nati estremeceu e dilatou seu olhos, os esbugalhando. Ela anotou tudo na cachola e perguntou novamente, seu olhos estavam somente olhando para mim, ela queria ser uma vampiro excelente.
- Você sabe disso porque... Já fez isso?
Fique de boca aberta, meu queixo desceu até a altura de minha silhueta ousada, deixando a mostra meus brancos e cintilantes caninos. Babei, eca. Me senti insultada, por que ela achava que eu faria uma coisa dessas? Credo.
- O que você quer dizer com isso? - opa, eu havia pensado alto. Nati deixou a aluna perfeita de lado e assumiu controle de uma encrenqueira da sala. Se aproximou de mim, mostrou seus dentes. Ela tinha dentes mais amarelos e menos pontiagudos se comparados aos meus. Me apressei a exclamar o nome de meu mentor, o chamando. - Evil! Apareça! - o silêncio permaneceu entre nós. O céu escurecia e ficava nublado como os olhos de Evil. Vociferei. - Fiz o mandado na carta!
Ele surgiu. Mas Nati nem reparou em seu rosto perfeito e me encarou com o queixo mais caído que o meu. Opa, eu tinha falado aquilo me esquecendo que ela estava lá. Mas me pus a olhar para Evil apontando meu indicador para ele. Nati nem o olhou, somente me encarou. Entao coloquei minhas mãos no queixo de Nati, levantei seu queixo e virei sua cabeça com as mãos na direção de Evil.
Ri quando Nati, já com o queixo na posição certa, caiu novamente. Seus olhos brilhavam e ela derretia ao chão como numa balada. Aproximando-se dela, Nati gemeu e estremeceu.
- Quer dizer que você também é o meu mentor? - perguntou o olhando com desejo. Ele me olhou e fez uma cara de interrogação. Se afastou de Nati, para logo se aproximar de mim e se esconder atrás de mim.
Ele era tão perfeito. Tinha a pele bronzeada, olhos que estavam combinando com o céu nublado do dia. Ele era alto, portanto não fez sucesso ao se esconder de trás de mim. Nati se aproximou para tocá-lo. Com total adoração nos olhos Nati repetiu o que acabar de perguntar-lhe e me observou.
- Puxa - disse com adoração, minha amiga. - ,ele é mais lindo do que você falou, Evan.
Epa! Você se esqueceu que ele estava aqui? Pensei. Me afastei de Evil gaguejando e rindo. Ele sorriu para mim com um sorriso cauteloso. Tropecei em Nati e cai em sua cama. Evil se aproximou de mim e me levantou. Mas me soltou quando percebeu em Nati seu corte. Enlouquecido se aproximou dela e lhe agarrou a cintura. Nati gemeu. Ele encaixou seu corpo no dela, com se fossem fazer sexo, e a beijou o pescoço. Nati me encarava num olhar, como se estivesse dizendo: “Ele gosta de mim e não de você” ouvia ela cantarolar em meus ouvidos. Fiquei estável. Quando Evil estava a poucos centímetros de seu corte, colocou sua língua nele e logo começou a chupar cheio de entusiasmo. Nati ficava gemendo. Porém depois de um minuto, começou a ficar pálida, me apressei em afastá-lo. Dei um empurrão nele. Ele estava com sangue fresco em sua boca, estava pingando nojentamente. Nati começou a bufar, me apressei e com muita coragem, pedi que Evil fizesse um corte em meu pescoço sem beber nada. Ele se recuou, mas logo cedeu. Quando ele me cortou com os caninos, me senti seduzida e deixei ele me sugar até a ultima gota. Juro, dei um pule em seu colo. Nati nem percebia de tanta tontura e falta de ar que estava sentindo. Quando me lembrei, pedi a Evil que parasse imediatamente, pois a morte de Nati estava iminente. Ele afastou sua boca de meu pescoço, triste. Eu senti uma atração por ele no mesmo instante. Mas me aproximei de Nati e disse às pressas:
- Vamos, chupe!
Ela nem esperou e de imediato sugou mais que míseros 500mls. Ela estava completamente fascinada, estava impressionada com a explosão que o sangue causava em um vampiro.
Ela gemia e eu só conseguia olhar para Evil. Ela começou a ficar mais forte e menos pálida. Quem diria que sua primeira presa seria sua melhor amiga. Com Nati ainda em meu pescoço, perguntei débil para Evil:
- Quem é o mentor dela?
- Não o conheço.
- Como assim?
Ele apontou para o céu e empinou a cabeça. Olhei para o céu dificilmente. Afastei Nati de meu pescoço e a derrubei ao chão. Ela nem se importou, pois acabara de sugar sangue e estava sentindo um calafrio passar por todo seu corpo, despertando em ela prazer.
- Deve ser um apóstolo de Goodnight - insinuou Evil.
Goodnight! O Deus do bem! Nati era uma vampira do bem enquanto eu era uma vampira
do mal! Me senti suja e completamente chocada. Funguei e derramei lágrimas, que caiam em Nati como uma leve garoa, mas ela não percebeu, ela estava num sono profundo. Evil se aproximou de mim, e vi que nele tinha um coração do bem. Foi como se ele tivesse adentrado meu coração e me feito apaixonada por ele. Bufei e como em um ciclo vicioso, ele cortou sua garganta com uma lâmina que carregava no bolso. Me espantei e me afastei dele, ele se aproximou de mim e aproximou minha cabeça ao seu pescoço e eu cobri sua ferida com meus lábios. Ele então, começou a gemer, e apertou com mais força a minha cabeça contra seu pescoço sangrento. Seu sangue era quente e doce. Era diferente de todos que eu já experimentara. Sangue de vampiro era melhor que de qualquer outro. Sentia o mal de seu sangue percorrer o meu corpo. Me senti uma cachorra enquanto o sugava. Quis tirar minha roupa ali mesmo e experimentar o que todos diziam ser maravilhoso. Mas me senti bloqueada, eu não queria parar o que estava fazendo para tirar a roupa e ainda por cima ele era mais experiente que eu. Mas ele começou a tocar minha bunda! Me senti sexy e ousada. Tirei suas mãos da bunda e as coloquei em meus peitos. Aquele vestido realmente dava mais volume aos meus seios. Ele começou a tocar-los e eu senti uma onda de prazer se espalhar em mim. Seu sangue estava ficando cada vez mais gostoso e parecia que não iria acabar nunca. Eu não queria que acabasse! Queria que aquele momento permanecesse. E permaneceu.
Mas em meio ao tempo que se passava. Tivemos que interromper a seção de ousadia. Ele deu um breve aceno para mim com a mão tampando a ferida. Me espantei e estremecia ao ver que a ferida sumiu com o toque de sua mão. Como se ele tivesse lido meus pensamentos, tocou a garganta de Nati e fez sumir seu corte. Se aproximou de mim e com um beijo curou minha ferida! Ele estava me paquerando e eu estava gostando. Eu estava apaixonada. Fiquei triste, como se uma luz tivesse se apagado em mim quando ele desapareceu.
Havia me esquecido de Nati e me aproximei dela. Mas não a despertei, aliás ela estava dormindo profundamente. Ela precisava de um bom sono. Dei um pulo e um gritinho de leve que fez Nati se mexer. O telefone havia me assustado, seu triii havia me assustado! Todos na casa estavam ocupados então atendi ao telefone. Novamente ouvi aquele mesmo chiado e me senti desprotegida sem Evil por perto, eu estava carente. Com uma voz trêmula de medo perguntei:
- Quem está ai?
A voz soava familiar e começou a falar alegremente ao me ouvir: - E ai gata? Ta afimde me ver? Espero não ter te assustado por ontem, é que o telefone aqui de casa ta uma merda - fiquei aliviada e decepcionada por ser Marcelo do outro lado da linha. Eu havia me esquecido que estava apaixonada por ele também! Por ele e agora por Evil!
- Que, que tu quer? - perguntei.
- Sair contigo, gata.
- Ta, me encontra amanhã.
Me tentei fazer de difícil. Coloquei o telefone sem fio no gancho e como todos na casa fechei os olhos e adormeci. Sonhei com Evil, com o jeito que ele me acariciava, o jeito que ele era lindo, com o jeito que ele me fazia rir, apesar de ser mal ele era um vampiro e tanto. Mas o meu sonho começou a ficar censurado, bebi seu sangue mas parei para fazer, vocês sabem.
Despertei horrorizada, já era quase nove da noite e eu havia dormido muito. Tinha que beber o sangue de alguém, sem 500mls meu dia acabava em ruínas. Improvisei um bilhete, acreditem todos ainda estavam dormindo. Lancei meus braços para a primeira caneta BIC que eu encontrei e com o outro braço arranquei uma folha de caderno na escrivaninha de Nati. Meus olhos forçavam para que eu enxergasse melhor, mas de nada adiantou. Sai do quarto com os roncos de Nati ao fundo. Desci as escadas cavalgando e me sentei na mesa do bar. Comecei a escrever com uma caligrafia horrível, pois eu estava tonta.
Prezada família, eu fui pra um shopping. Não se preocupem com minha enigmática ausência. Quero informar-lhes que não regressarei, estarei a caminho da casa de minha mãe. Não se preocupem apenas durmam tranquilamente.
PS : Adorei dormir ai, o meu fim de semana foi fantástico.
Li novamente todo o texto, fiz uma careta. Só pra constatar, eu só coloquei a parte “meu fim de semana foi fantástico”, pois Evil estava lá! Aliás, por qual outro motiva seria fantástico? Se Nati se tornou vampira, se nós brigamos quase que toda hora e pelo fato do Marcelo ter me dado um susto! Pois é, não tenho motivo, só o fato de Evil estar lá e de nós termos quase, você sabe... Minha cara de malícia tomou conta da minha face. Me debrucei na bancada, colocando um dos cotovelos para apoiar a minha cabeça reli o bilhete mixuruca. Peguei minhas coisas com uma pressa inexplicável e me dirigi até a porta da frente da casa. Em um momento e outro, me vi do outro lado da casa. Saindo do quente para o frio e dos roncos para o silencio duradouro da noite de sábado. Caminhei com os olhos se movimentando sem intervalo. Fiquei atenta a todos os movimentos e a todos. Carros que passavam tocando uma música de heavy matle, sertaneja , rock e até valsa. A cada melodia eu me direcionava aos arbustos e me encolhi para que não me vissem. Tiveram momentos que até pensei em assaltar um veículo, para saciar a minha sede por sangue. Fiquei perambulando as ruas à procura de qualquer ser. Em um instante me pus a pensar no fato de Nati ser do bem e eu... do mal. Me apressei a chorar e desabafar tudo em voz alta com a noite. Quando de súbito surgiu uma mulher, ela era familiar e linda!
- Vênus? - perguntei aflita.
A imagem distorcida do vulto se revelou como Vênus, minha Deusa. Sorri e quis abraçá-la, mas ao contrário fiquei parada e com as lágrimas ainda escorrendo as maçãs de minhas bochechas. A deusa me acariciou o rosto e com tamanha delicadeza me fez levitar com ela. Não fiz questão de gritar ou de mandá-la parar, à aquela altura (dos dois sentidos) eu já não me importava. Vênus, ficou muda o trajeto inteiro, me guiava desviando das estrelas brilhantes. Me senti no filme E.T., em que o menino voava com o E.T. dele. Ela me ninou, e cai em outro sono profundo. Sonhei que estava no extremo azul do céu, sendo guiada por uma força inexplicável, por uma força sábia e majestosa. Tão pura e significativa.
Logo despertei, Vênus não me havia deixado cair. Ainda estava em seus acolhedores e fortes braços. Começamos a descer, planando em um gramado molhado. As hortaliças, davam cor e paisagem ao local. Me sentia em outro filme, Alice no País das Maravilhas. Vênus ria de mim, ela invadia meus pensamentos e até tirava sua mão entrelaçada em mim, para cobrir sua barriga. Sua risada era a mais atraente e real, todos queriam rir com sua risada, por menos engraçada que a situação fosse. Ela fazia qualquer situação ser hilária. Assim que pousamos no gramado, senti cheiro de sangue! Olhei envergonhada para a deusa, que com apenas um olhar e um aceno me disse: “Vá, e trate de beber mais que míseros 500mls”. Novamente a deusa ria e se curvava para apertar sua barriga. Fora de seus fortes e confortadores braços que me protegiam contra o vento durante a viagem, corri até uma cabana. O cheiro ficava mais forte e encantador. Em um súbito instante, olhei para Vênus que estava sentado entre as várias hortaliças. Ela não havia percebido que a observava e continuou imóvel, em maio às várias hortaliças que lá habitavam. Seu rosto iluminavam a noite, seus cabelos preenchiam a noite como um véu escuro e ao mesmo tempo claro, seu sorriso encantava as estrelas e as faziam brilhar. Sua cabeça virou-se suavemente e seus olhos glaucos me encaravam fixamente. Mesurei rapidamente e fui em direção à cabana. No caminho farejei o odor com mais ganância, farejei aos plenos pulmões. Uma luz fraca iluminava o recinto, haviam toneladas de feno espalhadas. Será que a Deusa queria que eu me alimentasse de feno? Claro que não. Aproximando-me lentamente do piso fofo, ouvi ruídos. Vindo detrás de uma montanha de feno. Apertei e estalei os dedos, mordi meus lábios até fazê-los sangras dando sabor à minha boca. Arregalei os de extremo pavor. Haviam corpos por detrás da montanha amarela, os corpos eram mal tratados, cheios de feridas. Tinham cortes profundos, deixando visível seu sangue. Cinco dessas pessoas ainda estavam vivas. Me olhavam com um olhar de socorro. Por acaso a Deusa queria que eu os matasse? Uma sombra se fez formar no chão do feno. A parede de madeira dava forma a uma silhueta. Me virei. Vênus de braços abertos acolheu-me. Me abraçou intenso e fortemente. Disse com os olhos melancólicos:
- Filha, esses humanos foram envenenados e judiados por vampiros indolentes, que a esta hora já devem estar nas Trevas do inferno junto a Lúcifer.. Peço-lhe que os cure com o dom que lhe foi concebido.
Mas que dom é esse? Só sei sugar sangue. E realmente é possível curar um mortal quando venerado? As perguntas rodeavam mais e mais meu cérebro. Me deixei cair nos braços de Vênus. Minhas pernas falhavam ao tentar me manter em pé. Eu estava tonta e confusa. Eu sabia que precisava de sangue. Mas eu não me sinto bem em atacar pessoas frágeis em busca de me satisfazer. Uma das mulheres feridas se aproximou de mim dificilmente. Pegou minha mão e chorou emitindo um alerta em minha cabeça. Seu coração batia lentamente. Sua morte se tornara eminente. Reuni forças fora do comum e sai dos braços de minha Deusa. Ajoelhei-me no chão, onde podia olhar cara a cara para a mulher. Ela repetia sintonias. Seus olhos se fechavam e voltavam a se abrir com um susto. Seu cabelo estava todo desgrenhado e destruído, suas mãos tremiam ao segurar as minhas. Uma lágrima escorreu de seu rosto, a deixando leve, como se sua alma estivesse sendo arrancada do corpo. A agarrei em meus braços e comecei a chorar. Emiti um som agudo e triste. Segurei a mulher toda ferida nos braços, peguei sua cabeça e a pus na minha nuca de modo que eu pudesse ver seu pescoço.
- Me mate! Ou me salve... - disse a mulher com uma desgraça nos olhos.
Seu rosto perdia a cor rosada e dava lugar a um branco amarelado. Me vi diante de uma situação drástica. Aquela vida poderia se perder se eu não fizesse nada. Não evitei e hesitei. Agarrei seu pescoço com um ímpeto extraordinário. Porém, quando meus caninos se aproximaram do pescoço branco da mulher, Vênus ditou calmamente:
- Use seu dom, filha. Use seu dom, filha.
Aquela frase se repetia em minha mente como um disco riscado. Me concentrei no desejo de minha Deusa e fui cercada por um vulto amarelado. A cor era próxima do mal e do bem, o que me espantou. Eu sabia que quando a cor era mais próxima do vermelho o vampiro em destaque era do mal, porém quanto mais próxima do azul era do bem. Mas a minha cor era próxima às duas. Mas era mais próxima do vermelho. Desanimei por um instante, mas me senti bem novamente. Meu vulto me fazia levitar alguns metros, me deixando ao topo de todos. Minha Deusa balançava a cabeça de orgulho. Aceitei a cor de meu vulto e me concentrei em meu possível dom. A Legile de vampirri, deixava claro que os únicos dons que Lúcifer dava eram: o dom da levitação (eu tenho), o dom do controle (eu tenho) e o mais terrível, o dom da guerra. Mas esses dons apenas eram concebidos para mentores ou apóstolos e até mesmo aliados. Mas eu não era nada a disso. Mas as Legile de vampirri também escondia o lado bom, Goodnight (deus do bem) era o deus de Nati. Ele também tinha seus dons, ele também dava dons a apóstolos, mentores e aliados. Raramente para vampiros em treinamento. Quatro de seus dons eram: levitação, controle, pacificação e o dom de parar o tempo. Infelizmente eu não tinha a menor possibilidade de ter um deles, pois não sou do bem e sim do mal. Mas eu era mulher, o que significava, que tinha uma Deusa, e ela também dava dons. Os dons que ela davam eram variados, mas os mais comuns e freqüentes eram: o dom do vôo, o dom da sabedoria, da concentração, da cura e o mais raro, o do minério. Esse eu nunca compreendi. Mas tinha que me concentrar em salvar aquela débil mulher. Quando voltei ao chão, levantei os braços sentindo o poder fluir no meu sangue. Cai sobre o feno, olhei para a mulher pálida. Ela estava desistindo e aparentemente morrendo. Estiquei o corpo e me preparei para tocar suas feridas. Tocando uma a uma, vi as feridas cicatrizando e continuei o ritual. Achava que eram apenas ilusões e que eu estava perdendo-a. Mas sua pele começou a voltar ao tom rosado e a produzir calor. Seu coração bateu forte e rapidamente. Sorri para minha Deusa, que aplaudia. Me voltei para os demais corpos e fui tocando cada ferida. Sumiam rapidamente, dando lugar a uma cicatriz ou pele. Soltava lágrimas de alegria, minhas mãos estavam trêmulas e começaram a suar. Cada um dos corpos abriu os olhos e se levantaram. Todos mesuravam à Deusa e me agradeciam com lágrimas. Apenas um dos corpos permaneceu deitado. Ele estava de costas para mim, portanto não vi seu rosto. Era um garoto, precisamente aparentava ter minha idade. Me aproximei dele e o contornei. Comecei a berrar e tocar-lhe seu corpo, insistindo para sua alma retornar, mas a Deusa apenas disse:
- Desista Filha, este humano morreu.
Eu não queria que esse humano morresse. Não queria que o Marcelo morresse!