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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Segredos mortais


Na escola, depois do fim de semana perturbador, vi ali a minha presa destinada por Vampir o Grande e por Lúcifer...
- E ai? Como foi seu fim de semana? - perguntou a minha refeição, Nati.
- Posso dizer que foi... angustiante - disse, sem tirar os olhos das veias do pulso dela.
Um breve silêncio se encerrou entre nós. Nati escondeu o pulso de desconforto de meu olhar. Bufei.
- Você ligou pra minha casa nesse final de semana? É que eu recebi muitos telefonemas não atendidos no sábado e no domingo - disse Nati, angustiada.
- Fui eu sim... Recebi uma carta de Vampir o Grande - respondi
- Sério, puxa isso deve ser gigante, uma honra, certo? - perguntou a ingênua.
- Sim, mas você sabe que o que ser que estiver dentro da carta é uma ordem - disse aflita.
- Sei sim, é uma Legi de vampir.... Uma coisa assim, certo? - perguntou Nati se fazendo de “expert” em coisas de vampiro, tsc tsc, mal sabia ela o que lhe aguardava.
- Legile de vampirii, você quis dizer - murmurei.
- Tanto faz, Evan. O que está escrito na carta? - perguntou Nati, curiosa.
- Lamento, mas não posso dizer.
- Como não? Evan, agora você me deixou curiosa! - exclamou Nati, tapando a boca de ter falado tão alto.
- Isso, avisa o mundo que eu sou uma vampiro fria e cruel - sussurrei.
- Você não é nada disso, mesmo que te pedissem pra ser, você não conseguiria, Evan - falou Nati, me confortando com uns tapinhas leves nas costa.
Nati tinha razão, eu não conseguiria nem mesmo se alguém (Evil, Vampir o Grande ou Lúcifer) pedisse. Eu era uma vampiro diferente das outras, eu era compassiva e temia pela quantidade de sangue que eu retirava das veias de minhas vítimas, para que não houvesse nenhum dano sem cura.
Dei um sorriso amigável para Nati, apesar de tudo que eu sou, ela me apoiava e compreendia. Ela era uma amiga fiel e cheia de amor e proteção para dar, e eu uma garota aparentemente normal que se transforma quando deseja, em uma vampiro. Eu sabia que não merecia aquela garota, essa pessoa de um coração tão bom e doce. Mas eu tinha em mente que o que teria de fazer mudaria tudo! Mas por que com ela? Por que não com outra pessoa? Me sentia culpada todos os dias pelas vítimas que eu fazia ao longo da semana, mas não conseguiria nem olhar meu próprio reflexo se eu fizesse isso.
Como eu, poderia fazer isso com ela? Eu sabia que ao menos Nati devia saber de seu destino aclamado por Vampir o Grande e Lúcifer.
- Nati, temos que conversar... - disse para Nati, que nem esperava pelo que estava por vir.
Ela me deu um sorriso e me fez um olhar do tipo “diga, estou ouvindo”, mas eu precisava falar com ela, ou pelo menos com alguém.
- Diga Evan - disse Nati com um olhar de entusiasmo.
Não consegui falar nada, nem mesmo uma palavra. Engoli em seco e pensei “quem sabe com Evil, aliás ele é meu mentor e é seu dever me ouvir”.
- É que.... Eu tenho que ir.... Pra biblioteca estudar - disse e me levantei. Olhei para trás e vi Nati me encarando com uma cara de dúvida, mas ao invés de me segurar pela mão e me forçar a sentar e “desembuchar” todas as fofocas (como geralmente faz), ela apenas apontou com o indicador para o relógio e se despediu com um breve e generoso aceno. Entendi que ela quis dizer, ao indicar o relógio, que era para eu não me atrasar pois ainda lhe restavam respostas para eu ter-lhe chamado a atenção.
Corri em direção reta para a quase sempre vazia biblioteca da escola, virei a primeira curva para a direita e me espantei ao me deparar e quase trombar com o Marcelo.
- Oi... Desculpe - disse morta de vergonha, ele me acariciou a nuca e colocou meus cabelos atrás dos ombros e da orelha. Fiquei paralisada esperando arrepiada pelo que o Marcelo iria dizer.
Ele olhou direto nos meus seios ficou os encarando com um sorriso maroto, me apressei e coloquei minha mão em seu queixo e o levantei. Ele olhou direto nos meus olhos e ficou os encarando, tive vontade de fazer um escândalo ali mesmo, no corredor próximo à biblioteca e fazer com que a bibliotecária me desse uma advertência pelo meu grau de voz.
- Não é nada não, mas Marcelo dá pra parar de olhar pra baixo? - disse para ele, apontando minha cabeça para meus seios e olhando-o com uma expressão facial de desgosto e nojo.
Ele se adiantou a responder:
- Relaxa Evan, estava apenas observando a sua blusa, bacana ela em? Além do mais não sou tarado só apaixonado, ou a Nati não te falou? - insinuou Marcelo sabendo muito bem (mais do que bem) que era evidente que a Nati tinha me dito o que ele pedira-lhe.
Fiquei ali o encarando de cima a baixo, ele era lindo, um corpo perfeitamente esculpido, já até me perguntara se ele não era um vampiro (os vampiros são uma espécie magnífica de bela). Fiquei imaginando se o Marcelo estava dizendo a verdade sobre ter olhado para a “blusa” vermelha de sangue. Me perguntei se ele não tivera mesmo reparando na ousada silhueta, mas como se tivesse invadido meus pensamentos disse:
- Relaxa Evan, não estou olhando nada de... de... especial.
Fiquei ali espantada pelo uso ridículo da palavra “especial”, mas que tarado! Eu sempre soube que o Marcelo tinha uma certa atração por mim, ele nunca me chateou ou coisa do tipo, ele era um dos garotos mais populares do colégio e era malvado com todas exceto eu. Não que eu não gostasse desse individualismo por mim, mas ele era grosso com as outras e isso me fazia pensar cada vez mais que o Marcelo era um vampiro.
O silêncio ecoou no corredor e a única coisa que eu ouvia eram meus pensamentos. De repente, uma cabecinha se projeta na dobradiça da porta semi-aberta e diz:
- Muito bem crianças, continuem fazendo silêncio.
Olhamos (eu e o Marcelo) com um ímpeto para a nanica da Sra. Soares, ela acenou e piscou para nós, não pude conter os meus risos. Ri muito e alto. Logo, Marcelo também se debatia de rir e murmurou em meu ouvido:
- Você não estava indo para algum lugar, Evan?
Sim eu estava, e tinha que ir logo, ate porque eu tinha uma amiga me esperando na lanchonete com os olhos fixos no relógio digital.
Corri em disparada para a porta semi-aberta da biblioteca onde em poucos segundos antes a Sra. Soares havia agradecido e nos feito morrer de rir.
Sem dizer ao menos um tchau, acenei para o gato que eu deixara para trás e fiz um vasto gesto para a Sra. Soares, ela me cumprimentou e apontou para a cadeira manchada (provavelmente de sangue, não, definitivamente de sangue) que eu sempre sentava quando alugava um livro de Vampiros, o que era bizarro para velha bibliotecária que me conhecia tão bem quanto conhecia o século XIX.
Me surpreendi quando ela correu lentamente para uma prateleira e voltou com um livro pesado e empoeirado e o colocou sobre a mesa (ainda mais ensangüentada do que a cadeira) e insinuou:
-Escolhi especialmente pra você assim que a vi com aquele menino.
Pensei bem no que iria falar dali, escolhi as palavras cautelosamente:
- Ele não é meu amigo, ta? - percebi que a Sra. Soares fez uma careta marota e continuei - Por que está me olhando assim? Além do mais não estou a fim de ler - menti, sempre tive arroubo de ler, novamente a velha senhora me encarou e quando foi abrir a boca para insinuar algo sobre o que eu acabara de falar a interrompi - Nem vem que não tem Linda (seu nome), quero que você saiba que só vim aqui para ir na prateleira de dicionários.
- Deixe-me falar Evan! Eu te conheço a cinco anos, e sei que você é apaixonada por esse rapaz - disse ela, e era verdade tenho dezesseis anos e freqüento a biblioteca desde os onze anos ou menos - esse é um livro magnífico, Evan, quero que você o leia com atenção.
Aceitei a proposta e o coloquei na mochila, preenchi o folheto de alugamento de livro e me levantei. Mesurei para a Sra. Soares e andei cautelosamente e de olhos fechados como se fosse da realeza até a prateleira de dicionários.
Olhei em volta, não havia ninguém e sussurrei baixinho:
- Evil, preciso de você agora!
Nada surgiu e repeti:
- Evil apareça!
Em um breve segundo vi um vulto roxo e uma brisa congelante. Ele foi se materializando no ar, pude ver como seu corpo era melhor esculpido que o de Marcelo e me concentrei em sua beleza indescritível.
- Que acontece Evan? Leste a carta? - perguntou o deus grego, mas nesse caso o deus maligno.
- Pois é eu li, mas acho que tem algo errado... - gaguejei, mostrando-lhe a carta.
- Desculpe-me mas Vampir não erra - disse arrancando a carta de minhas mãos - Deixe-me ler - pude acompanhar seus olhos deslizarem na carta e logo ele continuou - não há nada de errado.
Fiquei triste e desabafei com meu mentor:
- Prefiro morrer ao realizar tal ordem!
- Jura? - perguntou confuso o mentor.
- Não, mas porque? Com que fim eu tenho que fazer isso?
- Não sou Vampir, querida.
Me derreti ao ouvir ele me chamar assim, mas voltei ao normal bufando. Perguntei:
- Mas você o conhece correto?
Evil não disse muito apenas fechou a boca e mordiscou os lábios, pude ver incerteza no seu rosto, mas logo ele afirmou com a cabeça.
- Pode perguntar a ele por que eu tenho que fazer isso? - perguntei.
Apenas vi Evil mesurar e afirmar com a cabeça se desmaterializando no ar. Fiquei ali parada, com os pés cravados ao chão, triste. Vi minha velha amiga se aproximando e me abraçando vendo meu sofrimento sem motivo (para ela). A olhei e derramei uma lágrima em sua blusa de lã, ela não se importou e pediu para que eu chorasse a vontade em sua blusa. Fiz o que ela pediu e derramei em lágrimas, ela me levou para o balcão da biblioteca pouco visitada (já que poucos alunos tinham total interesse me livros). A encarei e me surpreendi ao ver que ela tinha um pequeno risco azul em seu olhos, eu nuca havia percebido. Parei de abraçá-La e me concentrei em seu olho, aliás em seu dois olhos! Isso era um sinal, ela era uma mentora? Reparei ainda mais e me aprofundei em seu olhar. Percebi que ela se afastou de mim e cobriu o rosto. Fiquei ali, sentada no balcão de boca aberta.
- Você.... Você Sra. Soares... - gaguejei e cai dura na bancada me deitando sobre vários livros recém devolvidos a ela.
Linda afirmou, mesmo que aquilo que eu disse não soara como uma pergunta e fiquei ali, se ela afirmara para mim assim tão brevemente, queira dizer que ela sabia de minha pessoa melhor do que eu pensara. Ela tocou minha bochecha e com o mesmo dedo com o qual tocou minha bochecha guiou até o livro que ela recomendara.
Li o nome do livro e me debrucei de espanto sobre a bancada: “Linda e Vampir, um amor eterno”.

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